Comunidades
BelJogos: há mais de 20 anos fortalecendo o desenvolvimento de games no Pará
Comunidade criada em 2003 acompanha a evolução do setor no estado e reúne desenvolvedores, artistas, pesquisadores e profissionais que defendem mais formação, investimentos e oportunidades para a indústria paraense de jogos
Quando a comunidade BelJogos surgiu, em 2003, o desenvolvimento de jogos eletrônicos no Pará ainda dava seus primeiros passos. Mais de duas décadas depois, o grupo continua ativo e acompanha um cenário bastante diferente daquele encontrado por seus primeiros integrantes.
Hoje, o estado reúne desenvolvedores independentes, estúdios, pesquisadores, artistas e profissionais de diferentes áreas trabalhando na criação de jogos digitais e analógicos. Há projetos paraenses premiados em eventos nacionais, novas empresas surgindo e uma comunidade que busca transformar iniciativas ainda dispersas em um ecossistema cada vez mais estruturado.
Para Marcos Romero, fundador da BelJogos, parte da longevidade da comunidade está justamente na capacidade de não depender de uma única pessoa.
“Quando eu iniciei o BelJogos em 2003, um dos meus objetivos era o de me empenhar para manter o grupo até o ponto em que ele conseguisse continuar sem depender da minha intervenção direta.”
Segundo Romero, ao longo dos anos outras pessoas passaram a assumir esse compromisso e se tornaram verdadeiros pilares de sustentação da comunidade. Ele também destaca que o crescimento ocorreu a partir do apoio a iniciativas de desenvolvimento de jogos não apenas no Pará, mas também na Região Norte e em outras partes do país.
Uma comunidade movida pelo desenvolvimento da região
O sentimento de pertencimento regional aparece como um dos elementos que ajudaram a manter o grupo unido.
Elinaldo Azevedo, representante sênior da BelJogos, acredita que existe entre os participantes uma vontade comum de mudar a posição historicamente ocupada pela Região Norte dentro do mercado brasileiro de games.
“Vemos outras regiões do Brasil com muitas pessoas criando seus jogos e ganhando destaque, mas nossa região sempre ficou à margem do mercado nacional.”
Para ele, um dos principais objetivos da comunidade é contribuir para que não apenas Belém e o Pará, mas toda a Região Norte, ganhem relevância e ofereçam oportunidades para quem deseja desenvolver jogos sem precisar deixar a região.
Filipe Valente, gerente da comunidade, atribui essa permanência também às iniciativas contínuas de promoção, preservação e educação relacionadas ao desenvolvimento de jogos, além das parcerias construídas dentro e fora do Pará.
Já Ingrid Mendes, integrante da BelJogos desde 2008, ressalta que existe um desejo coletivo de demonstrar que a produção regional pode competir em qualidade com a de outros centros do país.
“Somos um povo tão criativo, sabemos que temos potencial para muito mais.”
Para Ingrid, apesar de trabalhar com menos recursos quando comparada a outras regiões brasileiras, a comunidade paraense já demonstra capacidade de desenvolver produtos competitivos e busca modificar indicadores que ainda apontam o Norte como uma das regiões com menor concentração de empresas e produções ligadas ao setor.
Um mercado que começa a ganhar corpo
O cenário descrito pelos representantes da BelJogos é de crescimento, mas também de grandes desafios.
Romero destaca a diversidade dos projetos atualmente desenvolvidos no Pará, com jogos digitais de ação, aventura, educação, história e treinamento, além do crescimento da produção de jogos analógicos e de tabuleiro.
Outro avanço está no surgimento de mecanismos públicos de financiamento. Editais culturais, como os relacionados à Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e à Lei Paulo Gustavo, passaram a representar novas possibilidades para desenvolvedores.
Elinaldo observa que as oportunidades não se restringem aos games tradicionais. Tecnologias utilizadas na criação de jogos também podem ser aplicadas em projetos multimídia e experiências interativas para diferentes setores.
Ainda assim, ele faz uma ponderação.
“Viver de jogos no Pará torna-se uma aventura difícil.”
A quantidade de empresas especializadas exclusivamente em games ainda é limitada e os mecanismos de financiamento permanecem insuficientes. Por outro lado, justamente essa ausência de um mercado consolidado pode representar oportunidade para empreendedores interessados em explorar jogos, interatividade e novas formas de engajamento.
Mais de 20 estúdios e projetos premiados
Filipe Valente aponta uma mudança importante ocorrida nos últimos anos. Segundo ele, entre 2020 e 2026, mais de 15 novos estúdios voltados ao desenvolvimento de produtos lúdicos surgiram no Pará.
Atualmente, de acordo com o representante da BelJogos, o estado já possui mais de 20 estúdios trabalhando com jogos digitais ou analógicos, alguns deles reconhecidos e premiados em eventos realizados em diferentes regiões do Brasil.
A própria BelJogos atua como vitrine para esses projetos, promovendo desenvolvedores em portais de notícias, realizando entrevistas e lives e ajudando estúdios a participarem de eventos onde podem apresentar suas criações ao público.
Ingrid também percebe uma mudança significativa no setor.
“Atualmente estamos com muitas produções em andamento, já lançadas e algumas até premiadas, tanto regionalmente como nacionalmente.”
Para ela, essas conquistas são importantes porque ampliam a visibilidade do Pará e demonstram que existe capacidade técnica e criativa instalada no estado.
Potencial existe, mas falta estrutura
Apesar dos avanços, os representantes da comunidade são praticamente unânimes ao apontar que o ecossistema precisa de mais apoio para alcançar outro patamar.
Entre as necessidades estão maior oferta de cursos profissionalizantes e universitários, editais específicos para desenvolvimento de jogos, incentivo à pesquisa, apoio para dedicação intensiva aos projetos e maior aproximação entre desenvolvedores, empresas, instituições de ensino e poder público.
Ingrid menciona particularmente a importância de uma participação mais efetiva de instituições estaduais ligadas à ciência, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, além de ações locais de apoio ao empreendedorismo no setor.
O mercado também oferece uma característica importante para quem pensa em ingressar na área: desenvolvimento de jogos não é uma atividade restrita a programadores.
“A área de jogos é multidisciplinar, oferecendo oportunidades para várias áreas do conhecimento, como programadores, administradores, roteiristas, artistas, músicos e acadêmicos com foco no estudo de jogos.”
A própria internet, segundo Ingrid, reduziu parte das barreiras geográficas que historicamente dificultavam a entrada de profissionais da Região Norte no setor.
A BelJogos também mantém suas portas abertas para orientar pessoas interessadas em começar a desenvolver jogos.
O próximo passo é transformar comunidade em ecossistema
Para Marcos Romero, a prioridade permanece na expansão das parcerias e na criação de uma infraestrutura que permita à comunidade interagir, aprender, apresentar seus trabalhos e construir conexões profissionais dentro e fora do Pará.
Elinaldo vai além e imagina um futuro no qual o estado consiga competir em condições semelhantes às de outras regiões brasileiras.
“Um dos meus objetivos é ter um ecossistema atrativo e fértil para empresas, desenvolvedores e consumidores de games. Quem sabe tornar o Pará um polo exportador de games.”
Filipe aponta como um dos próximos passos a criação de uma associação de desenvolvedores de jogos digitais e analógicos do Pará, além da possibilidade futura de uma cooperativa.
A formalização também aparece entre as prioridades defendidas por Ingrid.
Para ela, é necessário estimular desenvolvedores que já atuam profissionalmente a transformarem seus projetos em empresas e avançar na construção de uma entidade capaz de representar institucionalmente o setor.
“Formalizar é preciso para seguirmos evoluindo.”
A proposta, entretanto, não se limita aos videogames. A intenção é continuar apoiando também autores e produtores de jogos de tabuleiro e outras experiências analógicas.
Como resume Ingrid:
“No final, seja digital ou tabuleiro, tudo é jogo.”
Quem são os representantes da BelJogos
Marcos Romero é bacharel em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Pará (UFPA), fundador da RH Games, apontada como a primeira empresa de desenvolvimento de jogos do Pará, e fundador da comunidade BelJogos. Atua também como educador e autor de livros sobre desenvolvimento utilizando Blueprints, publicados internacionalmente pela editora Packt.
Elinaldo Azevedo é graduado em Ciência da Computação, especialista em Gerência de Projetos de Software e mestre em Computação Aplicada. Foi professor e coordenador de curso de Jogos Digitais, atuou em startup de games e atualmente é avaliador de projetos e representante sênior da comunidade BelJogos.
Filipe Valente é formado em Artes Plásticas pela UFPA e atua como ilustrador, artista conceitual, modelador 3D e artista freelancer. Participou da equipe do jogo paraense Ghostein, vencedor do prêmio de melhor narrativa da GameJam+ 2018, e atualmente colabora com CatVenture e a Maldição na Torre Negra. É representante e gerente da comunidade BelJogos.
Ingrid Mendes é cientista da computação, mestre e doutoranda em Computação Aplicada. Atua na BelJogos desde 2008, possui experiência na área de qualidade de software e também desenvolve conhecimentos em desenvolvimento de jogos.
Mais de vinte anos depois de sua criação, a BelJogos chega a um momento em que seu desafio deixa de ser apenas manter uma comunidade ativa. O próximo passo é contribuir para transformar a criatividade e a produção já existentes no Pará em um setor mais organizado, profissionalizado e capaz de gerar empresas, empregos, conhecimento e produtos competitivos para o Brasil e para o mundo.